sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Eu sei, mas não devia

Chove lá fora e eu sinto os meus pés congelarem aqui dentro, estamos no verão, mas em sampa as variações climáticas são muito comuns, tanto que eu estou aqui entediada, pois a chuva desfez os meus planos de sair para beber e conversar com uma amiga. Enquanto o sono não vem vou ficando por aqui, ontem ele chegou mais cedo e foi tão bom, não tive nenhum sonho maluco, não que eu me lembre, melhor assim. Tenho aprendido que ou eu controlo meus pensamentos ou eles me controlarão, muitas vezes é melhor não ter grandes preocupações com determinadas coisas. No máximo viver o hoje.
Na busca por alguma leitura interessante, eu acabei baixando "O pequeno livro
das grandes emoções" e dentro dele encontrei um texto da Marina Colasanti, chamado "Eu sei, mas não devia", vou postar aqui só os melhores trechos:

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar
o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o
tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho
porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado
sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita
os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não
acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler
todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A
sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava
tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para
ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para
pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar
mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios.
A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser
instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de
cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se
acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia
dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando
não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o
cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia
está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro,
a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o
que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma
para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto
acostumar, se perde de si mesma.

Boa noite!

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Aos solitários

Diante de tantas coisas acontecendo na minha vida e de alguns momentos ociosos, que por sinal são realmente bem-vindos eu resolvi escrever, isso me fez um bem enormee rs:

Aos solitários

Não, não adianta esses ditados clichês do tipo: ”é necessário perder para dar valor” ou mesmo “desapegue disso e daquilo...”, no fundo as pessoas querem alguém de verdade, um relacionamento que valha realmente a pena, não algo utópico, idealizado, mas, enfim, algo sincero, que traga felicidade ao invés de tristeza, sofrimento e decepção. Ninguém vive sozinho, a solidão dói (mesmo naqueles que tem certa dificuldade de demonstrar e falar sobre os seus sentimentos)!

E as pessoas estão cada vez mais sozinhas e descrentes, é verdade! Sem falar do medo e da insegurança que invade o coração daqueles que um dia chegaram a acreditar em juras, promessas de fidelidade e amor eterno.

Alguns se perguntam: - É por que os relacionamentos não são mais iguais aos de antigamente? E eu respondo: - Talvez, mas e hoje em dia?! Hoje em dia circulam por aí manuais de como atrair, controlar, conquistar, e até descobrir as possíveis mentiras do outro (algo digno de vergonha), sem falar nas divergências estúpidas entre homens machistas e mulheres feministas e joguinhos sentimentais que não levam a nada.

E o pior de tudo isso é o fato das pessoas não respeitarem as outras (imagino a tamanha deficiência de superego nelas). Hoje proferir “eu te amo” é tão fácil como dizer “bom dia” e enganar, mentir, dissimular, trair (para a maioria) é mais bonito do que falar a verdade.

Dessa forma os indivíduos que já sofreram uma grande decepção (ou várias consecutivas, o que é muito pior) morrem de medo de serem feridos novamente, pois desaprenderam a confiar e até a diferenciar os seres humanos bons dos ruins! Afinal, é tão fácil confundi-los. E o receio faz de nós seres solitários, sem que muitos compreendam o motivo dessa real solidão.

(Anelize Dias Soares)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Eu só poderia amá-la

A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma ideia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento. Clarice Lispector

domingo, 8 de janeiro de 2012

Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado de coisas e seguranças por não termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, por isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado se salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio , de amor, de ciúmes e tantos outros contraditórios. (...)Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos o que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. (...) Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta.”

Clarice Lispector, “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Time of calm and peace

Não permita que os meus olhos deixem de brilhar mais uma vez. Não dê espaço as lágrimas, nem ao vazio ou qualquer outra coisa que não seja digna de amor.
Time of calm and peace...time to look inside...